sexta-feira, 22 de abril de 2011

Hoje é Dia da Terra


Hoje é o dia da Terra, dia da mãe Gaia. Hoje (e sempre) é dia de celebrar o viver, repensar atitudes, renovar(-se). Dia de agradecer à Gaia pelo abrigo, por ser a casa de todos nós. Mais do que isso: é momento de questionar, transformar, conhecer, libertar! Por isso, resolvi publicar aqui uma carta, permeada por lendas, de origem incerta, até controversa. Uma carta supostamente escrita em 1854 por um nativo norte-americano, o chefe Seatle, em resposta a uma proposição do presidente estadunidense de comprar as terras de sua tribo. Mais do que um escrito, é uma lição de respeito à vida.

"Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa ideia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro, e o homem - todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós.
O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Esta terra é sagrada para nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar as suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos.
E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém. O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir.
Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.
Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem as suas crianças o que ensinamos as nossas que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos - e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus do homem, e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e ferí-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnadas do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde está o arvoredo? Desapareceu.
Onde está a águia? Desapareceu.
É o final da vida e o início da sobrevivência."

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Lançada a Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos

Sete bilhões de dólares. Esse foi o valor estimado para os gastos com agrotóxicos no Brasil em 2008. No ano subsquente, 1 bilhão de litros de veneno foram despejados nas lavouras tupiniquins. Esses valores tornam o Brasil o maior consumidor de agrovenenos do mundo. Dos mais de 1400 tipos de agrotóxicos usados no Brasil, apenas 14 podem podem ter seu uso proibido por conta de serem prejudiciais à saúde, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Contudo, a proibição não coibe o uso ilícito dessas substâncias: em recente publicação científica da Universidade Federal do Mato Grosso, foi constatada a contaminação do leite materno de cerca de 60 mães da cidade de Lucas do Rio Verde por cinco agrovenenos legalizados e um proibido no Brasil ( o DDT). O município é o segundo maior produtor de soja do estado. 
Cabe aqui um parêntese: todo agrotóxico é prejudicial à saúde e não apenas determinados tipos. A denominação eufemística "defensivo agrícola" e a mais recente "agroquímico" tentam dissociar esses produtos de seus efeitos reais como veneno. Mas algumas ações são uma forma de aquecer e democratizar o debate sobre a utilização de venenos na produção de alimentos no Brasil. É o caso da Campanha permanente contra o uso de agrotóxicos e pela vida. Articulada por mais de 30 entidades da sociedade civil, movimentos sociais, instituições ambientalistas, estudantes, entidades ligadas a área da saúde e grupos de pesquisadores a iniciativa tem o intuito de combater, por meio de denúncias e propostas, qualquer forma de uso dessas substâncias e assim, a consequente contaminação ambiental e humana.
Também chamada de Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos, a ação foi exposta simbolicamente no Dia Mundial da Saúde (07 de abril) A ideia é também promover práticas agroecológicas, pautadas sobretudo na agricultura familiar, em contraponto ao modelo hegemônico do agronegócio nacional.

Participe da campanha! Veja como aqui!

Quer saber mais sobre os malefícios dos agrovenenos? Leia:
“O uso seguro de agrotóxicos é um mito” - Entrevista com a professora Raquel Rigotto, do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC)









domingo, 10 de abril de 2011

I Seminário Internacional "Ruralidades, Trabalho e Meio Ambiente" na UFSCar

O Programa de Pós Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) promoverá I Seminário Internacional "Ruralidades, Trabalho e Meio Ambiente".

Quando? 11 e 12 de maio de 2011

Onde? Campus São Carlos: Rodovia Washington Luís, km 235, SP-310 São Carlos - São Paulo - Brasil CEP 13565-905


Público-alvo: professores, pesquisadores, alunos de graduação e pós graduação, gestores públicos, integrantes de sindicatos e de movimentos sociais rurais, dentre outros.

Mais informações e programação, é só acessar: http://www.ppgs.ufscar.br/SeminarioRuras/FolderProrroga.pdf
Contato: (16) 3351-8673

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O novo Código Florestal e o modelo ultrapassado de "desenvolvimento"

Assim como os cílios têm a função de proteger os nossos olhos das agressões exteriores, as vegetações que margeiam as águas, as chamadas matas ciliares, resguardam os ciclos hídricos. A água, considerada “insumo” essencial para diversas atividades econômicas, ironicamente, pode estar ameaçada por uma das atividades que mais dela dependem: a agropecuária (leia-se agropecuária como termo intrinsecamente capitalista, nos moldes de produção de massa, cujo objetivo soberano é o lucro e os impactos ambientais são mera consequência). Já não bastasse a poluição oriunda de agrovenenos e fertilizantes químicos que a contaminam, agora a água tem seu ciclo e sua redoma natural em risco por conta de interesses econômicos.  
Apresentado em junho de 2010, o relatório que propõe mudanças no Código Florestal Brasileiro, do deputado Aldo Rebelo (PCdo B - SP) é permeado por pontos refutáveis e sugere uma redução na faixa de proteção das matas ciliares de 30 metros (conforme a legislação em vigor) para 15 metros. Em entrevista recente a um canal de tv, o deputado afirmou que matas ciliares com apenas 5 metros de extensão seriam suficientes e que os 15 metros são resultantes uma proposta consensual entre ele e o Ministério do Meio Ambiente. E ainda pode piorar: a nova versão do relatório a ser publicada em breve pode reduzir as áreas de proteção permanente (APPs) para 7,5m quando circundarem rios de 5m de largura.
Além disso, Rebelo quer mais: atualmente, as áreas de proteção em torno das nascentes compreendem um raio de 50 metros. Diante disso, o "nobre" mandatário do cargo público presta um desserviço: ele defende a redução dessas áreas sob a égide de estar advogando a favor dos pequenos produtores, os quais, segundo ele, ficam impedidos de trabalhar por conta da legislação. Segundo Aldo Rebelo, as leis ambientais vigentes criminalizam o produtor rural e prejudicam o crescimento da agropecuária e, por conseguinte, do país.
Outra questão polêmica, para não dizer cômica, dentre muitas, é a proposta pouco responsável de destituir o produtor da responsabilidade de registrar em cartório o tamanho da sua reserva legal. Rebelo aponta que a saída seria estabelecer uma declaração nos moldes do Imposto de Renda. Desse modo, a boa fé do proprietário em declarar seria a garantia da existência da reserva.
No início dessa semana, mais de vinte mil ruralistas fizeram uma manifestação em Brasília para pressionar os deputados a aprovarem o relatório do “lenhador” Rebelo. A senadora Kátia Abreu (DEM), ruralista atroz, marcou presença no intuito de pressionar os colegas pela aprovação. A emissora de televisão Bandeirantes, em seu principal telejornal, limitou-se a noticiar tacanha e tendeciosamente o tal protesto: munida de interesses nada éticos, a instituição que possui um canal direcionado aos produtores rurais, limitou-se a destacar apenas pontos “positivos” do texto de Rebelo. Segundo a matéria, o novo código florestal proibirá o desmatamento por cinco anos (como se isso fosse suficiente) e estabelecerá um prazo de 20 anos para recuperação das áreas degradadas (entretanto, “esqueceram” de explicar que o texto em questão prevê a anistia a quem desmatou áreas protegidas até 2008).
A degradação ambiental no Brasil, execrada pela legislação e decorrente das intervenções do homem na natureza, agora pode receber respaldo legal. Se o novo Código Florestal for aprovado, nosso país atestará que está retrocendendo. Enquanto diversas nações discutem e propõem ações para o desenvolvimento sustentável, a politicagem tupiniquim, com grandes empresas que bancam lobbystas, mostra que o Brasil continua arraigado a um modelo de desenvolvimento anacrônico, que remonta à Revolução Industrial e remete ao lema mais recente, mas já não atual, ditado por Juscelino Kubistchek de "crescer 50 anos em 5".  A ideia de que o Brasil é o celeiro do mundo talvez tenha desencadeado ou reforçado esse modelo ruralista-desenvolvimentista. A monocultura e a pecuária tomam o espaço das matas nativas e o crescimento a qualquer custo e que desconsidera a finitabilidade dos recursos naturais continua sendo propalado falsamente como o paradgima possível para a conjuntura brasileira. Quando os ruralistas se derem conta da realidade, pode ser tarde.

Quer se aprofundar? Então leia:
Código Florestal e catástrofes climáticas - Contextualização da legislação ambiental no Brasil
Código Florestal: Entenda o que está em jogo com a reforma de nossa legislação ambiental - Cartilha desenvolvida pelo coletivo de organizações não-governamentais ambientalistas SOS Florestas

Proteja as florestas brasileiras. Assine a petição: